Um texto sobre homens que nos silenciam e tentam nos enlouquecer

Pra quem luta contra a corrente machista os desafios são inúmeros, e mesmo quando você está num ambiente livres dos psius, das cantadas de rua, dos braços puxados, dos beijos forçados, das ridicularizações como resposta ao seu desinteresse, mesmo quando se distancia dos olhares que julgam sua roupa curta, mesmo quando você pensa: “ok, esse aqui é um ambiente machismo free”, ele dá um jeito de aparecer. Duas manifestações particulares do machismo tem se manifestado pra mim ultimamente: manterrupting e Gaslighting. 

Para falar do primeiro (manterrupting) vou recorrer ao brilhante episódio de Grey’s Anatomys que foi ao ar ontem. Não se preocupem, esse é um texto livre de spoilers. Nele, Shonda Rhimes, mais uma vez, mostrou seu compromisso com a causa feminista abrindo o nono episódio da décima segunda com o seguinte:

“Em reuniões, homens possuem 75% mais de chance de falar do que as mulheres, e quando uma mulher fala, é estaticamente provável que seus colegas homens a interrompam ou falem por cima delas. Não é porque eles são rudes. É ciência. É cientificamente provado que cérebros masculinos registram com maior dificuldade a voz feminina. O que isso significa? Significa que num mundo onde homens são maiores, mais fortes, mais rápidos… Se você não estiver pronta para brigar, o silêncio vai te matar (…)”

Greys-Anatomy-12x09 (1)

Eu não posso falar sobre muito o teor cientifico dessas afirmações. De fato existe um estudo norte-americano publicado na American Political Science Review que afirma que mulheres falam menos em ambientes quando cercadas por homens. Nesse estudo, que analisa grupos de deliberações (comitês, conselhos, etc),  eles examinam algumas questões interessantes como o tempo de fala que as mulheres possuem em comparação ao tempo destinado aos homens, a aceitação do grupo a uma proposta quando vinda de um homem e quando vinda de uma mulher (na amostra analisada as argumentações masculinas levam a mais decisões unanimes do que as femininas).  E a grande conclusão é a de que, mesmo quando homens e mulheres participam de deliberações que são igualitárias – que garantem o mesmo tempo de fala, a mesma quantidade de homens e mulheres, etc-  o simples fato de que os homens representam com maior facilidade uma posição de autoridade, torna esse processo desigual.

Agora vamos lá, seja honesto: Quantas vezes você assumiu, quando há um homem e uma mulher numa palestra, fazendo uma pesquisa, ou em uma reunião, que o homem fosse o líder? Eu mesma, quando olho em retrospectiva, confesso que já fiz isso. E ter passado por isso nos últimos dias me fez pensar em como essas mulheres devem ter se sentido, em como elas se sentem. Finalizo essa parte do mesmo modo que Shonda finaliza o episódio de Grey’s Anatomys supracitado:

“Você tem uma voz, então use-a. Fale. Levante suas mãos. Grite suas respostas. Faça com que seja ouvida, não importa como. Apenas encontre sua voz, e quando fizer isso, preencha o maldito silêncio”.

tumblr_o2eypyxfWB1s9rs2wo2_500.gif
A segunda das expressões do machismo das quais esse texto se ocupa, o Gaslighting, é pra mim uma das mais perversas  formas não físicas pelas quais o machismo se manifesta. O termo é usado para falar de um abuso emocional que tem como objetivo deslegitimar o modo como as mulheres pensam, se expressam, agem. E apesar no nome estranho – que vem de um filme homônimo no qual o marido tenta provar que a mulher é louca para ganhar uma boa grana com sua internação – o  Gaslighting é mais comum do que se pode imaginar. Aconteceu com a Ana Paula no BBB quando o Laércio e vários outros homens da casa a chamavam de histérica por não aceitar os machismos do coleguinha, acontece quando um homem te acusa de estar sendo defensiva demais ou sensível demais. Ou quando você está defendendo seus ideais e ele diz que você só está agindo assim por estar na TPM (Essa aconteceu comigo!). Para ilustrar melhor, quero usar o caso de uma colega que reclamou ao seu chefe do excesso de trabalho, ele disse que a quantidade de trabalho continuava a mesma e ela é que estava estressada, por isso estava achando aquilo. Quando ela me contou eu perguntei: “-O que você acha?”. E ela disse que não parecia ter a mesma carga de sempre, mas que talvez o trabalho a estivesse estressando e por isso ela tivesse aquela impressão.

940851_561382624020745_3837110913502225702_n
“Quanto mais mulheres tratadas como loucas, mais mulheres abusadas” Ribs.

 

Então, muitas vezes, não é tão simples perceber que isso está acontecendo com você. É comum que você pare e pense “Será que eu não estou exagerando? Será que eu estou estressada? Ele tem razão? Eu estou ficando louca?”. Como conselho geral eu posso dizer que o que faço: Siga seu instinto! Se você podia jurar antes que estava certa, não deixe uma frase, um comentário, ou mesmo um acenar negativo de cabeça machista fazer com que você duvide de si mesma.

P.s: O estudo citado é esse AQUI. É em inglês, mas vale a leitura.

Anúncios