Um texto sobre o poder de um ícone

Beyonce performs on her Mrs Carter world tour in Amsterdam

Eu tenho observado Beyoncé há um bom tempo, isso começou lá em 2009 quando eu sai da fase blasé “eu só gosto de coisas nacionais” e passei a prestar atenção no cenário pop internacional. Entre Ke$has, Katyy Perys e Lady Gagas lá estava Beyoncé, uma mulher negra com espaço e visibilidade. Minha primeira impressão foi “Meu Deus, ela é maravilhosa” (e ela de fato é) mas eu também comecei a pensar: “Ok, essa é uma mulher negra que tem espaço/visibilidade, mas que tá cantando sobre como as mulheres quererem compromisso e sobre como homens são suas únicas motivações. Beyoncé tem feito algo de bom com esse espaço?”. Fora Irreplaceable eu não conhecia uma música dela que criasse uma imagem independente das mulheres, então a coisa toda não me pareceu certa.

Mas quero fazer um breve pausa no percurso pra ressaltar que diferente de algumas feministas nunca tive problemas como o modo como ela usa o corpo na música/dança. Acredito que quando seguimos por esse caminho acabamos reforçando essa vigilância/controle em torno da sexualidade e dos corpos femininos. E isso não me parece muito feminista. Talvez justamente por esse olhar a própria Beyoncé tivesse antes suas ressalvas sobre o feminismo:

“por mais que a palavra feminista possa parecer extremista demais, eu posso dizer que me considero uma feminista moderna. Eu acredito na igualdade entre os sexos, mas por que, nós, mulheres temos que escolher que tipo de mulheres somos? Por que temos que nos rotular de alguma coisa? Eu sou mulher e eu adoro ser mulher.”
– Beyoncé Ao ser questionada sobre ser ou não feminista em entrevista da Vogue.

Não vou discordar do fato de que a palavra feminista pode parecer extremista, pode mesmo quando se falta esclarecimento sobre o que é feminismo. Acho que uma forma bem simples de explicar feminismo é justamente essa frase final da cantora, “eu sou mulher e adoro ser mulher”, ser feminista é sobre amar ser mulher, é sobre não permitir que sejamos diminuídas por sermos mulheres.

Em 2011, quando a Beyoncé lançou Run The World, fui lá conferir a letra esperançosa e mais uma vez fiquei sem saber o que pensar. Em um momento ela esta falando sobre mulheres que podem ser mães, trabalhar, estudar e festejar, que nós podemos ter tudo, mas ela também esta dizendo: “Boy I’m just playing/ Come here baby/ Hope you still like me /If you pay me“. Então continuei com as minhas ressalvas com relação a cantora.

2014 MTV Video Music Awards - Show
 (Photo by Michael Buckner/Getty Images)

Quando conheci Flawless (ouvi primeiro a versão com Nick Minaj e não gostei muito). Na versão Feat. Chimamanda Ngozi Adichie eu simplesmente tive um surto de amor por Beyoncé, eu devo ouvir essa música pelo menos uma vez por semana. E sim, sim eu estou ciente do uso de termos misóginos na letra, mas a mensagem do refrão é um hino de amor próprio, idependente das intenções de Beyoncé:I woke up like this, we flawless, ladies tell them”. Mas segundos depois Beyoncé lança Diva e cita Ronda Rousey, a lutadora de UFC que encaixaria boa parte das mulheres do mundo na categoria “vadias desocupadas”, criada por ela mesma. Tudo isso me levou a conclusão de que Beyoncé continuava perdida e que precisa, e muito, entender um pouco mais sobre feminismo. Ela precisa entender que:

1.Feminismo não é só sobre conseguir ter tudo, ou sobre ter noção disso. Mas é sobre ajudar outras mulheres nesse processo.

2. Feminismo é acima de tudo amar não só a mulher que você é, mas as outras mulheres que te cercam. As que optaram por não trabalhar e se dedicar ao marido/filhos, as que optam por não ter filhos, as que “não nasceram mulher”. O importante é que essas mulheres tenha recebido a mensagem o ponto acima: “vocês podem ter tudo”.

Ou seja, hoje quando alguém me pergunta o que eu acho sobre a postura feminista de Beyoncé a minha resposta é: “Bom, ela é feminista, mas não flawless”.

Mas me paree que agora a Beyoncé, finalmente, achou seu lugar de fala: a luta negra contra o racismo. Nada mais justo que uma das mulheres negras mais bem sucedidas da face da terra, e bem sucedida dentro de uma industria machista e branca, fale de racismo. Em “formation” (que vem gerando polêmica) a cantora referencia diferentes momentos da luta negra nos Estados Unidos. Fala de escravidão, descriminação, violência policial. Beyoncé nunca acertou tanto o tom como nessa música/vídeo, me parece uma mensagem clara, algo do tipo “Estou aqui, nesse lugar da indústria musical, no topo, em meio aos brancos, recebendo grammys, mas eu não esqueci de onde eu vim – My daddy Alabama, Momma Louisiana / You mix that negro with that Creole make a Texas bamma- que sou negra. Eu não sou indiferente a isso”.Formation é pura perfeição, mas alguns momentos merecem destaque:

1. Blue dançando com mais duas menininhas negras maravilhosas e seus cabelos maravilhosos.1160787I like my baby hair, with baby hair and afros

2. O menininho e os policiais com os braços no ar. A pichação no muro “parem de atirar em nós”. Em referência ao excesso de violência da policia dos EUA contra os negros.Captura de Tela (645).png

3. Okay, okay, ladies, now let’s get in formation, cause I slay. – É um claro chamado de união das mulheres negas. Um exemplo da força da união.

Captura de Tela (648).pngEu espero ver mais disso na Beyoncé no futuro!

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