Um texto esteriótipos e realidades

Ainda em tempo para o Carnaval, resolvi escrever um texto sobre a festa e as fantasias que não devemos mais alimentar, como o título bem denuncia. Comecemos refletindo sobre o erro disfarçado de folia, a afirmação de que no carnaval tudo pode. NÃO MESMO! Na verdade, de marchinhas à fantasias há uma grande lista de coisas que precisamos abolir do nosso carnaval, coisas que o torna perigoso e ofensivo para mulheres, negros, homossexuais e até mesmo para crianças. Mas vamos por parte:

1 – Fantasias racistas:

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Cabelo e cor de pele não são acessórios, ser negro não é uma fantasia. E mesmo assim todo santo carnaval encontramos diversas pessoas com perucas crespas, rostos pintados de preto, seios e nádegas aumentados de forma esdruxula. Quase sempre a mulher negra é personificação escolhida, mesmo pelos homens, como no caso da já infelizmente famosa nega maluca. “Se fantasiar de negro” é participar do chamado Black Face, algo que começou ainda no regime escravocrata e consiste em pessoas brancas representando personagens negros de forma estereotipada e ridicularizante. Mas a pergunta que me encuca mesmo é: Qual o objetivo de “se fantasiar de negro”? Porque isso não te torna, ô pessoa branca, mais suscetível a morte por assassinato, às investidas de policiais, isso não faz de você o alvo de culpa quando alguém é roubado, não te passa a experiência horrível de ser chamado de macaco (ou qualquer outro xingamento racista). Pintar a pele de preto não é uma homenagem ao negro, muito pelo contrário, é só mais uma forma de dizer que vez ou outra os brancos podem se apropriar de se negro, que enquanto personagem carnavalesco o negro é aceitável.

2 – Sexualização de personagens 

Porque adicionamos o “sexy” em personagens no geral? Quer dizer, você já notou como tem sempre uma enfermeira sexy, uma marinheira sexy? E como isso quase sempre só acontece com as personagens mulheres? Porque a fantasia de policial masculina tem calças compridas e a de policial feminina tem shorts/sais minúsculos se na realidade policiais homens/mulheres usam o mesmo uniforme? Se queremos mesmo ser sexys no carnaval (o que não é problema nenhum) deveríamos escolher personagens que são sexy, em vez de adicionar essa ênfase em outros.

Entre a sexualização de personagens a que mais me preocupa diz respeito a personagens infantis. Se você já leu O mágico de Oz e Alice no País das Maravilhas você sabe que essas personagens são meninas, crianças ainda. Dorothy, por exemplo, tem sete anos de idade do livro de L. Frank Baum. Sexualizá-las me parece mais uma das formas de romantizar a pedofilia. A imagem abaixo tem versões sexys das duas personagens vendidas em uma loja brasileira:

3 – Homens héteros (cis) vestidos de mulher.

Em um país onde pessoas transsexuais e travestis são assassinadas nas ruas, hostilizadas no mercado de trabalho e marginalizadas de forma geral, porque no carnaval homens héteros (cis) optam por “se vestirem de mulher”? Se as mulheres são violentadas diariamente, diminuídas social e profissionalmente, porque homens as escolhem como fantasia? Não há um proposito nisso que não seja negativo para mulheres.

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Fonte: Revista Época

Preciso só fazer uma pequena ressalva que acho importante, quando falo vestir-se de mulher não estou apenas considerando usar uma saia, um vestido, passar batom. Esses são elementos culturalmente definidos como pertencentes ao gênero feminino, mas que podem e devem ser usados por homens se eles assim quiserem. Tenho amigos que usam saias no dia-a-dia, é um direito deles, afinal de contas, repito, isso de roupa de mulher e roupa de homem é pura imposição. O que eles não fazem é agir de forma alegórica e estereotipada como mulher, é isso que há de errado no “fantasiar-se de mulher” no carnaval.

Devem haver várias outras fantasias que precisamos tirar de nossos inventários. E o exercício de problematizá-las é válido e importante, mas entendo que muitas vezes pode ser complicado perceber que estamos cruzando algumas linhas. Como exercício você pode sempre tentar se colocar no papel do outro antes de se caracterizar como o tal, talvez você enxergue se isso é ofensivo ou não. Por fim, cade dizer que: ‘It’s all fun and games until someone gets hurt

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