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Perceber-se feminista é entrar em um processo de problematização constante. Mas tem mesmo que problematizar? Tem sim! E com já bem disse Butler, problema não é uma coisa ruim, a gente só precisa aprender a melhor forma de criá-los e a melhor forma de tê-los. O problema é então o ponto de partida da mudança. Preocupem-se sempre com os totalmente satisfeitos. Nessas problematizações comecei a me preocupar com as mensagens que o público mais suscetível (crianças e adolescentes) recebe todos os dias através da publicidade, dos produtos culturais (filmes, novelas, séries, músicas) no que diz respeito aos papéis de gênero.

Na televisão é complicado achar produções com representações que possamos chamar de bons exemplos, mas com pouco de esforço você consegue encontrar alguns, “Degrassi: Next Class” é definitivamente um deles. Degrassi era produzida pela canadense CTV e foi cancelada no ano passado, mas aí veio a Netflix e salvou a série, então a Degressi que aqui falamos é justamente essa temporada produzida pela Netflix, que mantém alguns dos personagens originais. A série, relançada em janeiro de 2016, tem um mote bem comum, um grupo de estudantes de uma escola do ensino médio (bem Malhação), seus romances, crescimento pessoal, etc. Até ai nada de novo. De fato, em algumas das primeiras cenas da temporada vemos uma menina preocupada com seu corpo pra agradar um garoto, apesar dos esforços de uma de suas amigas:


– Foi a isso que o mundo nos reduziu? Tirar fotos no banheiro do colégio pra impressionar caras (…)

Apesar do comentário da amiga a menina vai em frente finge ter um corpo que não tem pra agradar o boy. Destaco isso pra deixar claro que algumas das representações padrões são mantidas (às vezes como contraponto outras por pura falha mesmo), mas vamos para a parte boa do negócio. Os personagens que merecem um high five + um beijo de luz. Juro que vou tentar ao máximo não estragar a série com spoilers.

Maya – A garota que não leva desaforo pra casa

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A primeira vista Maya é uma adolescente que sabe o que quer, tem bons amigos e um ótimo namorado. As complicações começam quando após topar fazer um show em um bar, apesar dos avisos da amiga (e tecladista de sua banda) Grace sobre como o dono do bar era machista. Enquanto tocavam um cara atrapalha a apresentação conversando alto no telefone, até que Maya se irritou e resolveu encará-lo sendo chamada de “piralha na TPM”, aí ela jogou o celular do cidadão dentro de um copo de bebida, recebendo um “vadia” em retorno.  Como resultado a banda acabou banida do bar. Atenção a esse trecho ótimo sobre o assunto:

Maya: Se eu comprar um celular pro cara será que o Keith deixa a gente tocar?
Grace: Se desculpar por se defender dá permissão pra esses caras te tratarem como lixo.
Zoe: Só que ninguém mandou você fazer o que fez.
Grace: A Maya foi chamada de vadia e ninguém se importa com isso? Ponto pra misoginia estabelecida.

A solução Maya pra se impor com relação a tudo isso foi usar sua música. Compondo a canção It’s not ok, que acaba se tornando algo maior. A letra da música fala sobre os diferentes tipos de assédios que as mulheres sofrem (do olhar ao toque, as palavras que são usadas pra nos diminuir por sermos mulheres)

Goldie – A ativista engajada

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Muçulmana, feminista, empoderada e empoderadora. Ela é líder do Clube Feminista da escola. No primeiro episódio da temporada a personagem concorre a presidente do conselho de classe e perde, embora tenha sido a única a de fato fazer campanha a apresentar propostas, mas ela continua militando. Seu próximo ato é um protesto para para transformar um dos banheiros masculinos em um banheiro feminino, já que as garotas gastam mais tempo para usar o banheiro e devido as grandes filas acabam se atrasando para as aulas. Durante a organização ela convida Maya pra cantar It’s no Ok, explicando que a música seria um hino do movimento, mas a garota se mostra relutante por achar que as garotas do clube “se irritam por qualquer coisinha”. Vale a pena ver esse vídeo onde Maya e Goldi conversam, é lindo:

Depois disso, ainda vemos muita luta da Goldi em prol das mulheres, um exemplo é o protesto do Clube Feminista contra a sexualização dos corpos das mulheres dentro da escola.

Lola – A garota que redescobriu os orgasmos.

Lola é uma Argentina que, como muitas mulheres, desconhecia seu próprio corpo. Entre os muitos personagens interessantes de Degrassi escolhi Lola e esse seu arco porque uma razão simples: Quantas vezes vemos uma série de TV falar abertamente sobre masturbação feminina? E ainda mais um programa para adolescentes. Vemos Lola brincando publicamente com algo que ela acreditava ser um chaveiro, mas acabou descobrindo ser um vibrador. A garota fica muito envergonhada até que uma de suas amigas conta que se masturba e a deixa curiosa. Já em casa, ela usa o vibrador mais acredita que há algo de errado com ela, por não conseguir gozar. Vemos então Lola ir à ginecologista que a orienta a descobrir seu corpo e sobre como a masturbação é normal e prazerosa.

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Zig – O cara que aprendeu sobre consentimento

Depois de fazer sexo uma vez com a namorada Zig tentou sem sucesso repetir a dose, o que fez com que o garoto começasse a acreditar que a garota não gostava dele, ou que o sexo havia sido ruim. Pessimamente aconselhado por um amigo, ele decide ser mais firme com a garota, que diz não algumas vezes e quando o namorado não desiste acaba batendo nele. Logo em seguida, vemos Zig conversando com o mesmo amigo que o aconselhou, quando Grace aparece:

Zig: -A operação mandar ver foi um fracasso. Eu tentei ser mais firme, mas eu acho que ela não está a fim de mim?
Grace: -Ou talvez ela não queria ser estuprada.
Zig: -O que? 
Grace: -Como é que você chama forçar alguém a transar?
Zig: -Grace, ela é minha namorada.
Grace: -Ainda assim é estupro.
Tiny: -Essa não foi a primeira vez deles Grace.
Grace: E daí? Fez uma vez e de repente tem acesso livre?
Tiny: -Então ele tem que pedir pra fazer tudo?
Grace: -É idiota! O nome disso é consentimento. Sabe aquela coisa que você tem que ter ante de agarrar uma pobre garota?

A partir daí Zig conversa com a namorada e todo o processo culmina em uma cena onde o casal volta a fazer sexo, e Zig começa pedindo pra beijá-la, e depois pra tirar a blusa dela. Ela pede pra tirar a dele. E por aí vai… mas tudo com muito CONSENTIMENTO!

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Além desses personagens destacados a série retrata bem a diversidade que falta nas telinhas: gays, lésbicas, negros, latinos, bissexuais. Trata de temáticas como morte, bullying, sexo, DST de formas bem interessantes. Por fim, cabe dizer que é Degrassi é uma série que vale a pena de se ver mesmo que você não esteja na faixa de público esperado. Vale pelo encanto de ver essas representações e temáticas serem tratadas de uma forma que não te faz querer revirar os olhos, muito pelo contrário.

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